quarta-feira, abril 13, 2005

Cícero revisitado

"...é um triunfo da vida que a memória dos mais velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas que raras vezes falhe para as que na verdade nos interessam. Cícero ilustrou-o de uma penada: Não há um velho que esqueça onde escondeu o seu tesouro."
Márquez, Gabriel García, Memória das minhas putas tristes, (trad.) Maria do Carmo Abreu, Lisboa, D. Quixote, 2005,pp.16-17.

Apesar da distância temporal e dos diferentes estilos de abordagem do tema, a velhice é um dos temas recorrentes da literatura. A minha intenção, independentemente das opiniões pessoais acerca do mais recente livro de Gabriel García Márquez, é mostrar que se trata de um tema actual.
Após a leitura "Da Velhice" de Cícero, é quase impossível ler a última publicação do escritor colombiano sem encontrar traços de intertextualidade. Senão vejamos: trata-se da narrativa de um velho de 90 anos que foi (entre outras coisas) professor de Latim e que considera o latim a sua língua materna. O facto de ter uma personagem cujo nome é Marco Túlio também não passa despercebido. Além disso, a citação acima transcrita é uma referência directa a Cícero. Não pode ser coincidência!
Tratam-se de duas obras que, apesar de diferentes, glorificam a velhice.

"Há já alguns meses previra que a minha crónica de aniversário não fosse o habitual lamento pelos anos passados, mas na realidade o contrário, uma glorificação da velhice."
Márquez, Gabriel García, Memória das minhas putas tristes, (tad.) Maria do Carmo Abreu, Lisboa, D. Quixote, 2005, p.15.

"Foi realmente para mim tanta a alegria na composição desta obra, que além de ter dissipado todas as moléstias da velhice, tornou esta mesma suave e espirituosa."
Cícero, Marco Túlio, Da Velhice, (tra.) Carlos Humberto Gomes, Lisboa, Cotovia, 1998, p.12.

E se outro motivo não houver para alertar a consciência das pessoas acerca da forma como encaram a velhice e o modo como tratam os mais velhos, pelo menos este deve surtir algum efeito.

"É isto tudo o que tinha para vos dizer acerca da velhice. Que possam chegar até ela e ser, assim, capazes de provar como experiência a verdade que de mim escutastes."
Cícero, Marco Túlio, Da Velhice, (trad.) Carlos Humberto Gomes, Lisboa, Cotovia, 1998, p.57.

Que é como quem diz um dia chega a vossa vez...

1 Comments:

Blogger Ritinha said...

Eu acho que esta intertextualidade entre a obra de Cícero e de Gabriel García Márques mostra duas coisas.
Primeiro, que os autores que nós consideramos clássicos não estão assim tão esquecidos como se costuma pensar. Em segundo lugar, alegra-me saber que nem todos têm uma ideia errada da velhice. É importante encarar-mos as pessoas mais velhas como alguém que tem muito para nos ensinar e não como obstáculos que só dificultam a nossa vida...

6:18 da tarde  

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